Dunkirk (2017)

Dunkirk não é só um filme, mas sim uma experiência e embora na sua estrutura arriscada possa se tornar redutor e provocar a alienação de alguns expectadores, para nós, os restantes, o filme toma a posição de uma janela agridoce, uma obra-prima para a maior falha da humanidade.

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As expectativas eram altas para Christopher Nolan.
O seu ultimo filme, Interstellar, abriu com cerca de $50 milhões em receita doméstica, com uma receção crítica positiva e, antes dele, filmes como The Dark Knight Rises ($160.0 milhões) e Inception ($62.9 milhões), marcaram o que tem sido uma década ininterrupta de sucesso para o realizador. No entanto, ganhos passados não representam ganhos futuros, e mesmo nomes de peso da industria com provas dadas como Gore Verbinski (Pirates of the Caribbean, 2003) e Guy Ritchie (Snatch, 2000), apresentaram este ano baixas performances no box-office doméstico (A cure for Wellness King Arthur, respectivamente). Até Ridley Scott com o retorno à serie de culto Alien ficou longe do valor de produção com o rendimento dos E.U.A.
Portanto, as expectativas eram altas para Dunkirk, mas, felizmente, expectativas que se concretizaram.
Apesar de um risco para a Warner Bro., com um orçamento de $150 milhões, e do burburinho das early previews, Dunkirk faturou $50.5 milhões no fim-de-semana de abertura e consolidou a reputação de Nolan como um dos realizadores mais lucrativos de sempre.

O filme, definido pelo realizador como “não sendo um filme de guerra”, é de facto mais uma obra de arte impressionista do que uma experiência cinematográfica.  Nolan, preocupa-se  mais com impressões sensoriais do que com a exposição do enredo e é com forte apoio na maestria de Hoyte van Hoytema (cinematografia) e Hans Zimmer (banda sonora) que o consegue, chegando o espetador ao final do filme colado ao assento como se apenas cinco minutos se tivessem passado.

A palete de cores utilizada, ao principio remanescente de outras obras de época sobre o mesmo tema e período, como Atonement (2008) ou Testament of Youth (2014), cresce e transforma-se com o desenrolar da ação, embrulhando-nos imperceptivelmente cada vez mais no momento que Nolan  recria. Como quando uma das personagens principais chega à praia de Dunquerque, apenas para observar um painel branco, pálido e desolado de estagnação, estando apenas momentos antes  numa palete vibrante e colorida, simbolizando adrenalina de estar vivo após uma perseguição do inimigo. Não é apenas a cinematografia que é soberba. Através da utilização de câmaras IMAX em conjunto com o enquadramento, os planos utilizados em Dunkirk criam assombro ou claustrofobia para um mise en scène imersivo, onde qualquer momento poderia ser uma foto maravilhosamente enquadrada e estudada.

Em complemento, mais que o jogo visual, é o som que consegue fazer subjugar a audiência. Hans Zimmer desde muito cedo que consegue criar uma ambiente ensurdecedor de stress continuo, como se nós próprios estivéssemos naquela praia a segurar uma expectativa frágil, um estado de alerta onde a mais pequena interrupção nos faz saltar em reação.  O compositor, à semelhança de que já fez em projetos anteriores como Interstellar (2014) ou Sherlock Holmes (2011), recorre ao tiquetaque de um relógio e uma estrutura musical de crescendo sem nunca se concretizar, projetando um ambiente tenso que nos obriga a prestar atenção. Após a visualização do filme, fica a sensação que por entre explosões, silêncios e gritos de angústia, nem por uma vez deixou a música de tocar e o desespero de se sentir.
Uma melhor explicação deste efeito em “Vox: The sound illusion that makes Dunkirk so intense“.

Onde a cunha pessoal de Nolan brilha e se destaca, é na complexa tendência que tem para jogar com a interpretação tradicional da audiência sobre o tempo e espaço. Em Dunkirk, Nolan  escreve e oferece narrativas distintas, mas interconetadas sobre o mesmo evento.
Numa tentativa de não fazer spoiler, a primeira narrativa prende-se com Tommy (Fionn Whitehead), um jovem soldado inglês que se junta a outros dois soldados, Gibson ( Aneurin Barnard) e Alex (Harry Styles) para juntos desafiarem uma e outra vez a morte em tentativas sucessivas de voltar para Inglaterra – são os soldados, que em desepero largam as armas para se salvarem.
O segundo ponto de vista, surge pelo Comandante Bolton (Kenneth Branah), que serve como veículo para a exposição de Nolan sobre o alto poder militar e todas a variáveis logísticas e dilemas que um punhado de homens tem de lidar para decidir as vidas ou mortes de 400.000 militares – é sobre esta optica que a audiência entende a escala e o desespero coletivo do conflito.
As duas narrativas restantes, aparecem através de Farrier (Tom Hardy), o exímio piloto que tenta a sacrifício pessoal proteger o máximo de embarcações possível – de louvar tanto o trabalho de Nolan como de Tom Hardy, apesar do escasso diálogo a personagem de Hardy consegue marcar a audiência através da soma total das suas ações – e Dawson (Mark Rylance), o cívil de meia-idade, o homem “velho” que quando vê o seu pequeno iate confiscado para o resgate militar decide, com a companhia do filho, tomar parte ativa do conflito e tentar salvar o máximo de vidas possível.

Todo o enredo é simplista no dialogo, mas intrincado e contrastante na sua estrutura..  O realizador, à semelhança do que fez em entrada anteriores, trabalha a ideia de que a forma como percebemos o tempo e espaço como rápido ou lento, longe ou perto, depende de onde estamos, ou seja, do nosso ponto de vista. Algo evidente na estrutura do filme através dos seus três principais arcos: apesar de equivalente distribuídos, passam-se numa hora, num dia, e numa semana. O filme salta sobre eles como se fossem equiparáveis, numa forma e estilo que comprime e expande o tempo para dar ênfase à mensagem que Nolan quer transmitir no momento – aqui uma batalha aérea que dura trinta segundos, tem o mesmo tempo percebido para nós que os militares que esperam por nove dias o resgate na praia. Dunkirk é um retrato da sociedade, de como esta luta pela sua sobrevivência.
O filme não está preocupado com os indivíduos a não ser que estes se estejam a tentar salvar-se a si ou a outros. Prefere explorar como os paradigmas de vida ou morte se relacionam multidimensionalmente, numa tentativa de retrato fidedigno da complexidade moral da guerra, que está eficazmente presente e caracterizada em todas as nuances que lhe compõem o cenário.

Dunkirk não é só um filme, mas também uma experiência. Embora na sua estrutura arriscada se possa tornar redutor e provocar a alienação de alguns expectadores, para nós, os restantes, o filme toma a posição de uma janela agridoce, uma obra-prima para a maior falha da humanidade.

“Yes, God, Yes”

Uma abordagem espirituosa, ainda que simplista, sobre o despertar sexual de uma rapariga adolescente. Muito bem filmado e interpretado, e uma excelente contribuição à crescente influência das curtas metragens.
Merece ser visto.

Turbilhão de coisa alguma

Talvez percebesses que um turbilhão não é um nó ensimesmado, com ponta de novelo igual ao fim, que é uma explosão de pó de espaço, brilhante e amarelo, verde, rosa, azul, ocaso, numa tela gigante e particular.
Talvez percebesses que sempre te o foi.

Se eu conseguisse fazer-te estar, sorriria só.
Talvez percebesses que nada é sério, que o que eu tenho é leve, que me faz feliz.
Que é suposto fazer feliz.
Talvez pudesses perceber o tempo… e quanto demasiado há dele na distância.
Talvez pudesses perceber que as pedras mudam de tamanho e forma. Com a violência do vento, com a gentileza da água…
Talvez percebesses que o céu é suposto ser feito de confusão e que são as nuvens que fazem brilhar o azul, mesmo as cinzentas.
Talvez percebesses que um turbilhão não é um nó ensimesmado, com ponta de novelo igual ao fim, que é uma explosão de pó de espaço, brilhante e amarelo, verde, rosa, azul, ocaso, numa tela gigante e particular.
Talvez percebesses que sempre te o foi.
Talvez percebesses o antónimo de pensar, quando me tens à frente para olhar.
Talvez percebesses que o leão tem um dente, feroz, inamovível, irredutível. E que és tu que o guardas.
Talvez percebesses tudo, talvez não percebesses nada, mas eu sorriria. Só.

Imagem: Allied (2016)
Música: Chet Baker – My Funny Valentine

Querido, Amor.

Quero te dizer, mesmo não querendo, que te olho demasiado perto, mesmo quando fecho os olhos para não te ver.

Querido, Amor.
O que te quero dizer?

Quero dizer que és trejeitos castanhos, por entre madeixas despenteadas.
Por entre olhares meus que não sabes que tenho, que não sabes que decoro.
Quero te dizer que és linhas finas, desenhadas por sombras de noites longas à luz de candeeiros.
Linhas familiares, que beijo em memórias de sonhos.

Quero te dizer que és riso, que o pior, é que és riso.
Quero te dizer que és presença. Que estás. Sempre.
Que és uma pedra. Uma que é grande à frente e pequena em baixo.
Que mesmo que te pontapeie e atire, para a frente ou para trás, que não me vejo livre de ti.

Quero dizer que não sei se te mereço, mas que também não sei me mereces.
Que isso pouco importa.
Que eu não escolho, nem tu escolhes, quem te dá e a quem te dás.

Quero te dizer, mesmo não querendo, que te olho demasiado perto, mesmo quando fecho os olhos para não te ver.

Imagem: Anna Karenina (2012)

Cósmica

Eu saio, eu penso.. e tu disparas.
Para orbita, para um universo de cores que tento cobrir de olhos meio fechados e um pano demasiado pequeno.

A indulgência é algo perigoso,

Eu saio, eu penso.. e tu disparas.
Para orbita, para um universo de cores que tento cobrir de olhos meio fechados e um pano demasiado pequeno.

Quando penso que se foi,
sobe-me,
como turbulência que entra pelas pontas dos dedos,
em choque,
como um deslize e um abraço de electricidade.

As estrelas (e a poeira cósmica) revoltam-se em dourado e cor-de-rosa,
zangadas,
maravilhadas pelo que isto é:
uma explosão violenta, incontrolável… de mel e calor,
calor quente.
E porque não pára?
Porque derrete assim em mim? Me cobre dentro e fora.
Porque é que está sem voltar e sem nunca ir?
Porque é que me dança e dança sem tocar?

Imagem: By The Sea (2015)

Conto – I

Como é que poderia não parar? Com a habituação a pressão desaparecia… Não podia ser.
Era preciso mais, muito mais.
Era preciso afogar e afogar-se.
Não haveria tempo para mais ninguém… “Eu, eu, eu, seria a cantiga deste António meu”

– Para um conto precisas de duas pessoas.
– Porquê?

Dia 1

O cabedal preto rugia e os óculos vermelhos também. António brilhava e extasiava com o artifício fluorescente da sala ofegante. Os corpos dançavam e o tempo abrandava com cada batida da musica que misturava.
Depois acordou.
Acordou com calma, como se nunca tivesse verdadeiramente dormido e apenas piscado os olhos.
O telemóvel tocou, uma mensagem.
“Mia”
Não sabia se havia de ficar contente ou não com isso.
Não se deu ao trabalho de ler, atirou o telemóvel para a cama e foi tomar banho.

Dia 2

A pressão era uma droga, com o climax no pico de trabalho.
Como é que poderia não parar? Com a habituação a pressão desaparecia… Não podia ser.
Era preciso mais, muito mais.
Era preciso afogar e afogar-se.
Não haveria tempo para mais ninguém… “Eu, eu, eu, seria a cantiga deste António meu”

Dia 3

“Mia.”
Não sabia se havia de ficar contente ou não com isso.
Talvez fosse como a pressão, talvez fosse preciso mais.

Dia 4

Sandra.
Sandra?
Ai António.

Dia 5

Os princípios da persuasão são: reciprocidade; afectividade; validação social; escassez; compromisso e autoridade.
– Olá Joana – disse António com um sorriso.
Afectividade.
– Olá António.
– Posso levar-te a jantar?
– Não perdes tempo.
– Nunca com uma rapariga bonita como tu,
– Meu Deus, isso é suposto resultar? Ou melhor, isso alguma vez resultou?
– Não, mas não deixa de ser verdade.
Mais sorrisos, mas mais da Joana.
– E continua.
– É de propósito.
– Porquê?
– Não quero levar alguém ao sushi de mau humor.
Autoridade.
– Quem te diz que me vais levar ao sushi?
– Eu. Vamos Sukiyabashi.
Validação social.
– Quando?
– Isso agora vai depender da minha disponibilidade não é?
Escassez.
– Eu ainda nem aceitei.
– Acho que já.
– Não, convencido.
– Não? Disseste-me que te podia pagar uma bebida da ultima vez.
– E pagaste.
– Sim, mas não me disseste que não podia pagar mais que uma vez e num sitio diferente.
– Não… mas isso não deixa de ser muito rebuscado.
– Claro, mas também não deixa de ser um compromisso.
Compromisso.
– Aliás, poderia-se dizer que estás em falta com uma bebida de resposta
Um curto silêncio por entre pestanas baixas mas atentas.
– Ok, vamos.
Reciprocidade.

Dia 6

Susana.
Depois acordou.
“Susana”.
Acordou com calma, como se nunca tivesse verdadeiramente dormido e apenas piscado os olhos.
O telemóvel tocou, uma mensagem.
“Mia”.
Não estava contente com isso.

Dia 7

A noite foi boa, o sushi também.

Dia 8

“Mia”.
– Precisamos de conversar.
– Porquê?
– Não me podes continuar a enviar mensagens assim.
– Porquê?
– Não sei do que estás à espera.
– De ti.
– Não podes dizer essas coisas Mia.
– É a verdade.
– Pois, mas a verdade não é boa para todos.

Dia 9

António passeou pela noite deserta.
Com a musica de outros tempos e o maço de tabaco silencioso no bolso, sentia-se bem.
Pelo menos mentia a si próprio que sim.
Na verdade, no verdadeiro fundo, na parte de trás da enorme massa cinzenta que pensava ter, sabia bem demais que não.
Ilusão é uma coisa gloriosa quando confundida com ignorância.

Dia 10

Sandra.
Sim, Sandra.
Ai António…

Dia 11

Susana.
Depois acordou.
“Susana”.
Acordou com calma, como se nunca tivesse verdadeiramente dormido e apenas piscado os olhos.
O telemóvel tocou, uma mensagem.
“Mia”
Tocou uma vez mais.
“Sandra”
Uma terceira
“Joana”.
Mia, Sandra, Joana
Finalmente chegara a pressão.

 

Imagem: Skyfall (2012)
Música: Burak Yeter – Tuesday ft. Danelle Sandoval

Capítulo I – João

Não me mexi, não era preciso, reconhecia aquela voz em qualquer lugar.

O Calor da Beata
Capítulo I
“João”

Sentia-me sujo, por dentro e por fora.
Sentia-me com o sabor do tabaco nos dedos, macilento na roupa, impregnado na barba rala por fazer.
Odiava a sensação, os olhos pesavam-me e os pés ardiam devido ao álcool que saia lentamente das minhas veias.
Com esforço, levantei-me e massajei a cara com as mãos, acordando ligeiramente.
A dormência de existencialismos potenciados a álcool atenuava-se finalmente e decidi fazer o que sabia melhor: nada.
Contra bom senso e em fiel estupidez, guiei para casa, confortado na sensação que só teria de lidar com a realidade no dia seguinte.

O caminho foi feito mais por habilidade e rotina que por percepção real da estrada.
Os meus pensamentos deambulavam por becos escuros de nostalgia amarela e o meu corpo pedia cama, fazendo todos os reflexos que conhecia para a alcançar.
Quando finalmente cheguei, entrei pelo apartamento imundo e cinzento aos trambolhões.
– Bonito que tu estás – disse para mim próprio.
Falava sozinho quando estava ébrio, mas também não era algo que não fizesse sóbrio.
– Concordo – alguém disse.
Não me mexi, não era preciso, reconhecia aquela voz em qualquer lugar.
-Não devias estar noutro lado qualquer?
-Onde?
-Na cama com ele se calhar.
Não devia ter dito aquilo mas também não ia pedir desculpa. Comecei a despir-me, não queria saber se ela estava ali.
-Não. Não achas que andas a exagerar?
“Disse não… porquê?”
-Com o quê?
-Com tudo.
-Vai-te embora Raquel…
-Estás bêbado.
-E?
-Não gosto.
-Pensasses nisso antes. Vai ter com ele.
-João…
-Vai – com isto, e ao tirar uma das botas, caí no chão, merecia pena.
-Vai… – repeti mais baixo.
Despi o resto da roupa com esforço e deixei-me cair na cama, pronto a adormecer.
Disse a mim próprio que não queria saber se ela ia ficar ou não, que era irrelevante e que era uma desperdício sequer pensar no assunto…
Quase que acreditei.

Imagem: Lost In Translation (2003)