Vinicius

Tenho uma relação estranha com Vinicius de Moraes.
Sempre que me quero relacionar com o homem, não gosto. Não encontro um único poema, texto ou canção que me agrade. Pego exaustivamente numa antologia qualquer e não há página que me chame à atenção…

Anúncios

Tenho uma relação estranha com Vinicius de Moraes.
Sempre que me quero relacionar com o homem, não gosto. Não encontro um único poema, texto ou canção que me agrade. Pego exaustivamente numa antologia qualquer e não há página que me chame à atenção…
No entanto, de repente e quando menos espero, alguém me sugere o “Operário em Construção”. Curioso, leio e morro de potência e impotência ao mesmo tempo. Velho em novo por ele me ter dado um presente de sabedoria – pode-se dizer que aprendi a notar coisas a que não dava atenção…
Vinicius apareceu-me uma segunda vez na noite, estava com um amigo em depressão sobre o balcão.
O meu amigo bradava em álcool “A uma mulher! A uma mulher!”. Na altura questionei-o, a mulher em questão tinha nome e ébrio achei estranho ele não o usar. “ A uma mulher…” respondeu-me com mais calma, “…tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino… a uma mulher… Vinicius”.
Mais tarde, ainda atormentado pela cena, li o poema. Era-me difícil relacionar com ele, pelo menos no seu sentido linear, mas percebia-o. Melhor, percebo-o. Percebo-o muito bem…
A terceira (e infelizmente ultima) vez, foi a melhor. Foi numa canção. Encontrei uma canção simples, de amor, de realidades privadas e de saudade. Ela cantava:


Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você

E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares
Onde anda você

“Onde andam os seus olhos que a gente não vê”, murmurei constantemente durante os dias seguintes…
Tenho uma relação estranha com Vinicius. Tal como “Onde anda você”, quando o procuro não o encontro, quando espero não aparece. É apenas quando penso que o esqueço que ele faz questão de me encontrar.

Vinicius de Moraes – Onde Anda Você

Curar

Palavras caras, preciosismos e estilo:
Tudo o que não se quer.

O que se quer é pintar com palavras.
É sentir e fazer sentir!
Estremecer com aquele delicioso delicioso passar dos olhos.

O que se quer é vibrar. Em êxtase de querer ler mais!
O que se quer é uma espécie de epopeia. Em completo com meia dúzia de linhas!
O que se quer!
Sim.
Sim… O que se quer…

Tenho lido muito e muitas vezes e assim encontrei beleza nas voz distinta de cada bom autor.
É algo que quero para mim, que me leva a pensar sobre qual será a minha própria voz…

“Como escrevo? Sobre que escrevo?
O que quero?
O que quero mesmo?”

Sentimentos

Desculpa.
São os meus sentimentos a falar com os teus.

Atormentam-nos. Aos dois.

Egoísta, sim.
Certo? Mais.

Como sou eu? Tu? Sem alegria de te ver?
De te pensar.
De te tocar.
Te confundir com o sol.

E eu sei… Não estão certos os teus.
Atacam-te.
… Ataco-te.
Prazer, nostalgia…
… hipótese.
Pior que mágoa e cicatrizes:
Hipótese.
“E se?…”
“E se nós?”

Eu sei …
Acredita que sei.

Cicatrizes abrem – eu sei.
“Como te atreves?” – eu sei…

Eu sei.

Desculpa.
São os meus sentimentos a falar com os teus.

Electric Youth – The Best Thing

And you, and you

 

Imagem: Baby Driver (2017)
Data de escrita: 07/09/2016

palco porta para um teatro de tormenta e felicidade.

Haverá melhor frase para aqueles que carregam com intransigência um sorriso falso e um pensamento constante no fundinho das suas mentes?

“A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte”

Desejo ter sido eu a escrever isto.
E podia desenrolar-me em como a frase me faz sentir, a atmosfera que cria e os pêlos que levanta.
Mas não. Desejo ter escrito isto… não pela qualidade que tem, mas para poder ter sido o primeiro.
Ser aquele que heroicamente descortinou de espada em riste o palco porta para um teatro de tormenta e felicidade.

Credo… acho que exagerei um pouco. Desculpem.
Às vezes exalto-me em como estas coisas me fazem sentir – uma espécie de tremor nas pontas dos dedos que só conseguido apagar ao martelar teclas de suor romântico.

“A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte”

Haverá algo mais perfeito para a maldição silenciosa que é gostar de alguém?
Haverá melhor frase para aqueles que carregam com intransigência um sorriso falso e um pensamento constante no fundinho das suas mentes?
Que ouvem musica soul, baladas tristes, até teen pop, e compreendem tudo bem demais? Velhos e novos ao mesmo tempo por sentirem um amor intemporal não correspondido?

Religiosos e ateus. Agnósticos!
Todos sob uma bandeira de nação comum…

Exaltei-me outra vez.

“A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte”

Há muita coisa a dizer de facto.
Adoro a frase.

Alguém escreveu o teu nome em toda a parte, mas eu não o encontro em lado nenhum.

“A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! Ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!”
– Ornatos Violeta em Ouvi Dizer
Nota: Melhor servido com uma boa dose de Dave Matthews Band (Satellite ou If Only para melhores resultados)

Sr. Escritor

Atirar com as costas da mão um copo para um pouco mais longe do que perto. Com uma mão sobre a fronte, onde o cabelo fronteia a testa.
Escondido em palavras de verborreia, como um escudo que se faz de conta não se ter.

A escavar, raspar o fundo de um barril que infelizmente é o unico que tenho.
Perguntar-me ao zangar-me porquê.
Carregado, sobrecarregado pela intensiade de pensar sobre tudo a toda a hora.
Racionalidade de lógica na emocionalidade de querer sentir precisamente o que quero sentir.
É isto sim senhor, o meu senhor escritor.

Atirar com as costas da mão um copo para um pouco mais longe do que perto. Com uma mão sobre a fronte, onde o cabelo fronteia a testa.
Escondido em palavras de verborreia, como um escudo que se faz de conta não se ter.

Sair por sair na hipocrisia de justificação, expiação e explicação.
“Sai porque sai”.
“Sai , porque assim me ordeno” – e eu sou o dono e senhor da uma qualquer realidade momentânea.
Como esta, por exemplo.

O que quero dizer, é que estou farto de assinaturas “o que eu quero dizer”.
Que quero que saia sem pompa e circunstancia.
Sem motivos ocultos ou assumidos.
Que quero poder perder-me em franca escrita pela santidade que ela por si é.
Escrever, mas não pelo que me está sempre e em todo o lado.
Como aqui, por exemplo.

Mr. Writer – Stereophonics

Mr Writer, why don’t you tell it like it is?
Why don’t you tell it like it really is?
Before you go on home
 Imagem: Constatine (2005)

Turbilhão de coisa alguma

Talvez percebesses que um turbilhão não é um nó ensimesmado, com ponta de novelo igual ao fim, que é uma explosão de pó de espaço, brilhante e amarelo, verde, rosa, azul, ocaso, numa tela gigante e particular.
Talvez percebesses que sempre te o foi.

Se eu conseguisse fazer-te estar, sorriria só.
Talvez percebesses que nada é sério, que o que eu tenho é leve, que me faz feliz.
Que é suposto fazer feliz.
Talvez pudesses perceber o tempo… e quanto demasiado há dele na distância.
Talvez pudesses perceber que as pedras mudam de tamanho e forma. Com a violência do vento, com a gentileza da água…
Talvez percebesses que o céu é suposto ser feito de confusão e que são as nuvens que fazem brilhar o azul, mesmo as cinzentas.
Talvez percebesses que um turbilhão não é um nó ensimesmado, com ponta de novelo igual ao fim, que é uma explosão de pó de espaço, brilhante e amarelo, verde, rosa, azul, ocaso, numa tela gigante e particular.
Talvez percebesses que sempre te o foi.
Talvez percebesses o antónimo de pensar, quando me tens à frente para olhar.
Talvez percebesses que o leão tem um dente, feroz, inamovível, irredutível. E que és tu que o guardas.
Talvez percebesses tudo, talvez não percebesses nada, mas eu sorriria. Só.

Imagem: Allied (2016)
Música: Chet Baker – My Funny Valentine

Querido, Amor.

Quero te dizer, mesmo não querendo, que te olho demasiado perto, mesmo quando fecho os olhos para não te ver.

Querido, Amor.
O que te quero dizer?

Quero dizer que és trejeitos castanhos, por entre madeixas despenteadas.
Por entre olhares meus que não sabes que tenho, que não sabes que decoro.
Quero te dizer que és linhas finas, desenhadas por sombras de noites longas à luz de candeeiros.
Linhas familiares, que beijo em memórias de sonhos.

Quero te dizer que és riso, que o pior, é que és riso.
Quero te dizer que és presença. Que estás. Sempre.
Que és uma pedra. Uma que é grande à frente e pequena em baixo.
Que mesmo que te pontapeie e atire, para a frente ou para trás, que não me vejo livre de ti.

Quero dizer que não sei se te mereço, mas que também não sei me mereces.
Que isso pouco importa.
Que eu não escolho, nem tu escolhes, quem te dá e a quem te dás.

Quero te dizer, mesmo não querendo, que te olho demasiado perto, mesmo quando fecho os olhos para não te ver.

Imagem: Anna Karenina (2012)