Baby

– O diálogo é importante?
– Sim. É fundamental. É com ele que fazes a exposição, com que contas a história.
– Hm…Vamos fazer uma história.
– Os dois?
– Sim.
– Que história queres fazer?
– Tu é que me dizes, tu é que és o escritor.
– O melhor do mundo.
– Não és?
– Para ti sim.
– “Para mim, sim…” Quase que me seduzes assim… quase.
– E eu quero seduzir-te?
– Queres.
– Porquê?
– Vais continuar a fazer perguntas ou vais começar a seduzir-me?
– Para te seduzir tenho que fazer perguntas.
– Porquê?
– Porque nos acábamos de conhecer.
– Mas não podemos ser tipo… um amor de cinema? Fogo-de-artificio e sei que vou ficar contigo a minha vida toda?
– Podemos. Queres ficar comigo a vida toda?
– Não. Não me sabes seduzir.
– Tens a certeza?
– Tenho.
– Então, por que continuas aqui sentada?
– …
– …
– … Achas que foste muito esperto com essa pergunta, não achas?
– Não. Só um bocadinho sedutor.
– Já te ocorreu que podes ser uma obra de caridade qualquer para mim?
– Amor de cinema para obra de caridade…
– Ainda não decidi.
– Já reparei
– Por isso é melhor teres cuidado. Levanto-me a qualquer momento e desapareço.
– Não.
– Porquê?
– Queres levantar-te?
– Não.
– Estás a ver?
– Só por essa devia mesmo ir embora.
– Não vás.
– …
– Qual é o teu filme preferido?
– Doze Homens em Fúria
– Foste rápida. Não acredito.
– Porquê?
– Pelo comentário de amor de cinema há bocado. Todos temos um filme que consideramos como sendo o melhor, mas existe sempre um, bom ou mau, que nos toca a nível pessoal, que é o nosso preferido. Não achas?
– Acho que posso dizer que sim. És sempre tão quadrado a pensar?
– Tu não gostas mesmo de responder a perguntas pois não?
– Pelos vistos tu também não.
– Sim, tenho tendência para isso.
– Tu? O Grande Ensaísta? Agora sou eu que não acredito.
– Só o sou quando não estou a seduzir meninas como tu.
– Então deves ser mesmo grande…
– Por não haver mais meninas como tu ou por não seduzir ninguém?
– O que achas?
– Que és muito engraçada.
– Sou não sou? Eu sei.
– Então e o filme?
– Love Rosie
– Afinal.
– Sim. É óbvio que tens razão. Qualquer pessoa tem guilty pleasures. Mas, neste caso, há um problema… O enredo. Apesar dos problemas e dos anos todos… continua muito perfeito.
– É um filme.
– Sim… mas não sei… vejo-o e acho sempre que há uma história parecida, mais realista, que gostava de ser eu a contar.
– E não contas porquê?
– Não sou escritora.
– Isso não tem nada que saber. Se há algo que queres escrever, escreve.
– Sim, mas tu és o grande ensaísta…
– Sedutor.
– Antes fosses, mas não. O que eu quero dizer é que para ti é fácil falar assim.
– Não. Só escrevo muitas vezes. O que não quer dizer que seja fácil, torna-se mais fácil… Tens de experimentar. Faz muito bem e vais gostar.
– É?
– É.
– …
– …
– Afinal até sabes seduzir qualquer coisa.
– Isso é óbvio.
– Mas assim não.
– Assim como?
– Quando és convencido. Sabes seduzir quando não estás a tentar fazê-lo. E quando sorris. Quando sorris sabes seduzir.
– Há quanto tempo nos conhecemos?
– Há uma hora mais ou menos.
– E sabes isto tudo sobre mim?
– É como te disse, pode ser que seja amor de cinema. Dois olhares, fogo-de-artifício e com sorte, muita sorte na verdade, até pode ser que leves um beijo meu no fim.

Estavas encostada contra a parede da cafetaria com o cabelo ondulado solto caído sobre o ombro. A fluorescência das luzes néon incendiavam-no de amarelo, rosa e dourado.
Sorriste quando acabaste de falar e naqueles segundos de silêncio, a olhar para ti em chamas com a imaginação de um beijo na minha mente, fizeste fogo-de-artificio em toda a parte.

 

B-A-B-Y – Carla Thomas

Whenever the sun don’t shine
You go out to light my hind
Then I get real close to you
And your sweet kisses see me through

 

Imagem: Baby (2017)