Turbilhão de coisa alguma

Talvez percebesses que um turbilhão não é um nó ensimesmado, com ponta de novelo igual ao fim, que é uma explosão de pó de espaço, brilhante e amarelo, verde, rosa, azul, ocaso, numa tela gigante e particular.
Talvez percebesses que sempre te o foi.

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Se eu conseguisse fazer-te estar, sorriria só.
Talvez percebesses que nada é sério, que o que eu tenho é leve, que me faz feliz.
Que é suposto fazer feliz.
Talvez pudesses perceber o tempo… e quanto demasiado há dele na distância.
Talvez pudesses perceber que as pedras mudam de tamanho e forma. Com a violência do vento, com a gentileza da água…
Talvez percebesses que o céu é suposto ser feito de confusão e que são as nuvens que fazem brilhar o azul, mesmo as cinzentas.
Talvez percebesses que um turbilhão não é um nó ensimesmado, com ponta de novelo igual ao fim, que é uma explosão de pó de espaço, brilhante e amarelo, verde, rosa, azul, ocaso, numa tela gigante e particular.
Talvez percebesses que sempre te o foi.
Talvez percebesses o antónimo de pensar, quando me tens à frente para olhar.
Talvez percebesses que o leão tem um dente, feroz, inamovível, irredutível. E que és tu que o guardas.
Talvez percebesses tudo, talvez não percebesses nada, mas eu sorriria. Só.

Imagem: Allied (2016)
Música: Chet Baker – My Funny Valentine

Querido, Amor.

Quero te dizer, mesmo não querendo, que te olho demasiado perto, mesmo quando fecho os olhos para não te ver.

Querido, Amor.
O que te quero dizer?

Quero dizer que és trejeitos castanhos, por entre madeixas despenteadas.
Por entre olhares meus que não sabes que tenho, que não sabes que decoro.
Quero te dizer que és linhas finas, desenhadas por sombras de noites longas à luz de candeeiros.
Linhas familiares, que beijo em memórias de sonhos.

Quero te dizer que és riso, que o pior, é que és riso.
Quero te dizer que és presença. Que estás. Sempre.
Que és uma pedra. Uma que é grande à frente e pequena em baixo.
Que mesmo que te pontapeie e atire, para a frente ou para trás, que não me vejo livre de ti.

Quero dizer que não sei se te mereço, mas que também não sei me mereces.
Que isso pouco importa.
Que eu não escolho, nem tu escolhes, quem te dá e a quem te dás.

Quero te dizer, mesmo não querendo, que te olho demasiado perto, mesmo quando fecho os olhos para não te ver.

Imagem: Anna Karenina (2012)

Cósmica

Eu saio, eu penso.. e tu disparas.
Para orbita, para um universo de cores que tento cobrir de olhos meio fechados e um pano demasiado pequeno.

A indulgência é algo perigoso,

Eu saio, eu penso.. e tu disparas.
Para orbita, para um universo de cores que tento cobrir de olhos meio fechados e um pano demasiado pequeno.

Quando penso que se foi,
sobe-me,
como turbulência que entra pelas pontas dos dedos,
em choque,
como um deslize e um abraço de electricidade.

As estrelas (e a poeira cósmica) revoltam-se em dourado e cor-de-rosa,
zangadas,
maravilhadas pelo que isto é:
uma explosão violenta, incontrolável… de mel e calor,
calor quente.
E porque não pára?
Porque derrete assim em mim? Me cobre dentro e fora.
Porque é que está sem voltar e sem nunca ir?
Porque é que me dança e dança sem tocar?

Imagem: By The Sea (2015)