Prólogo – Canção de adormecer

O Calor da Beata
Prólogo
“Canção de adormecer”

– Pai.
– Olá – e sorrio.
O teu filho chegou.
– Afonso acho que está na altura de ires.
– Não vens?
– Não, acho que vou ficar mais um bocado. O teu pai tem de ir embora, não o demores.
– Mas eu quero ouvir mais.
– Eu sei, continuo para ti noutra altura.
– Então não vais contar mais?
– Só mais uma, antes de ir. Mas depois repito-a quando estivermos os dois.
Afaguei-lhe o cabelo.
– Anda, vai.
Saiu.
– Pai…
– Sim
– Será que te faz bem ficar?
– A indulgência é algo complicado.
– Sem pretensiosismos.
– Sinceramente… Não sei.
– Ficamos à tua espera para jantar.
– Eu sei, é a ultima. Até já.
– Até já.
Saiu.
Ficámos os dois.
– Continuamos?
Continuavas adormecida.
A tristeza apoderava-se de mim, mas era uma tristeza madura, de quem já viveu muitos anos.
Uma tristeza que se sente todos os dias, como uma ferida que não sara, tolerável e escondida.
– É a ultima. Quero que durmas bem… vou recuar alguns anos.

“Entraste no carro.
– Bem… eles têm razão. Esses calções são ridículos.
O padrão floral não era muito másculo de facto, mas a minha incursão na maturidade estética masculina estava no início. Naquela altura os únicos calções curtos que consegui arranjar tinham flores.
– Estás com vergonha?
– Claro, não vou contigo para a praia assim.
– Então ainda bem que vou eu a conduzir.
Abraçaste-me e encheste-me de beijos bem-disposta.
– Vamos para a praia!
Sorri.
– Vamos.
Conduzi com calma, com as janelas abertas e a apreciar o calor do dia.
A minha mão alternava entre as mudanças e a pele quente das tuas pernas, pousavas a tua mão sobre a minha sempre que o fazia.
Estavas bem.
Chegámos à praia e houve algo sobrenatural naquela tarde, quando me lembro dela, lembro-me como se se tivesse passado toda ao pôr-do-sol… não sei porquê.
Brincámos junto ao mar.
Beijámo-nos nele.
Abraçámo-nos.
Estivemos em silêncio na areia.
Dormitámos um bocado.
Beijámo-nos mais um pouco.
Jogámos raquetes.
Tiraste fotos, muitas.
E depois, peguei eu na máquina.
Houve uma foto, a que gostei mais, em que caminhavas para mim.
O sol estava baixo e incidia sobre ti, morena de bikini branco. O vento também te emoldurava, puxava o teu cabelo para trás, dando a impressão que deslizavas sobre o ar.
Penso que o mundo tropeçava sobre si mesmo para nos dar aquele momento, para te enquadrar perfeita num instante guardado entre nós os dois…
Sorrio sempre com essa memória, Raquel.”

Levanto-me
Beijo-te, devagar.
– É assim que ficas em mim… A caminhar e a sorrir. Para mim.

Saio.

Imagem: La La Land (2016)