Conto – I

Como é que poderia não parar? Com a habituação a pressão desaparecia… Não podia ser.
Era preciso mais, muito mais.
Era preciso afogar e afogar-se.
Não haveria tempo para mais ninguém… “Eu, eu, eu, seria a cantiga deste António meu”

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– Para um conto precisas de duas pessoas.
– Porquê?

Dia 1

O cabedal preto rugia e os óculos vermelhos também. António brilhava e extasiava com o artifício fluorescente da sala ofegante. Os corpos dançavam e o tempo abrandava com cada batida da musica que misturava.
Depois acordou.
Acordou com calma, como se nunca tivesse verdadeiramente dormido e apenas piscado os olhos.
O telemóvel tocou, uma mensagem.
“Mia”
Não sabia se havia de ficar contente ou não com isso.
Não se deu ao trabalho de ler, atirou o telemóvel para a cama e foi tomar banho.

Dia 2

A pressão era uma droga, com o climax no pico de trabalho.
Como é que poderia não parar? Com a habituação a pressão desaparecia… Não podia ser.
Era preciso mais, muito mais.
Era preciso afogar e afogar-se.
Não haveria tempo para mais ninguém… “Eu, eu, eu, seria a cantiga deste António meu”

Dia 3

“Mia.”
Não sabia se havia de ficar contente ou não com isso.
Talvez fosse como a pressão, talvez fosse preciso mais.

Dia 4

Sandra.
Sandra?
Ai António.

Dia 5

Os princípios da persuasão são: reciprocidade; afectividade; validação social; escassez; compromisso e autoridade.
– Olá Joana – disse António com um sorriso.
Afectividade.
– Olá António.
– Posso levar-te a jantar?
– Não perdes tempo.
– Nunca com uma rapariga bonita como tu,
– Meu Deus, isso é suposto resultar? Ou melhor, isso alguma vez resultou?
– Não, mas não deixa de ser verdade.
Mais sorrisos, mas mais da Joana.
– E continua.
– É de propósito.
– Porquê?
– Não quero levar alguém ao sushi de mau humor.
Autoridade.
– Quem te diz que me vais levar ao sushi?
– Eu. Vamos Sukiyabashi.
Validação social.
– Quando?
– Isso agora vai depender da minha disponibilidade não é?
Escassez.
– Eu ainda nem aceitei.
– Acho que já.
– Não, convencido.
– Não? Disseste-me que te podia pagar uma bebida da ultima vez.
– E pagaste.
– Sim, mas não me disseste que não podia pagar mais que uma vez e num sitio diferente.
– Não… mas isso não deixa de ser muito rebuscado.
– Claro, mas também não deixa de ser um compromisso.
Compromisso.
– Aliás, poderia-se dizer que estás em falta com uma bebida de resposta
Um curto silêncio por entre pestanas baixas mas atentas.
– Ok, vamos.
Reciprocidade.

Dia 6

Susana.
Depois acordou.
“Susana”.
Acordou com calma, como se nunca tivesse verdadeiramente dormido e apenas piscado os olhos.
O telemóvel tocou, uma mensagem.
“Mia”.
Não estava contente com isso.

Dia 7

A noite foi boa, o sushi também.

Dia 8

“Mia”.
– Precisamos de conversar.
– Porquê?
– Não me podes continuar a enviar mensagens assim.
– Porquê?
– Não sei do que estás à espera.
– De ti.
– Não podes dizer essas coisas Mia.
– É a verdade.
– Pois, mas a verdade não é boa para todos.

Dia 9

António passeou pela noite deserta.
Com a musica de outros tempos e o maço de tabaco silencioso no bolso, sentia-se bem.
Pelo menos mentia a si próprio que sim.
Na verdade, no verdadeiro fundo, na parte de trás da enorme massa cinzenta que pensava ter, sabia bem demais que não.
Ilusão é uma coisa gloriosa quando confundida com ignorância.

Dia 10

Sandra.
Sim, Sandra.
Ai António…

Dia 11

Susana.
Depois acordou.
“Susana”.
Acordou com calma, como se nunca tivesse verdadeiramente dormido e apenas piscado os olhos.
O telemóvel tocou, uma mensagem.
“Mia”
Tocou uma vez mais.
“Sandra”
Uma terceira
“Joana”.
Mia, Sandra, Joana
Finalmente chegara a pressão.

 

Imagem: Skyfall (2012)
Música: Burak Yeter – Tuesday ft. Danelle Sandoval

Capítulo I – João

Não me mexi, não era preciso, reconhecia aquela voz em qualquer lugar.

O Calor da Beata
Capítulo I
“João”

Sentia-me sujo, por dentro e por fora.
Sentia-me com o sabor do tabaco nos dedos, macilento na roupa, impregnado na barba rala por fazer.
Odiava a sensação, os olhos pesavam-me e os pés ardiam devido ao álcool que saia lentamente das minhas veias.
Com esforço, levantei-me e massajei a cara com as mãos, acordando ligeiramente.
A dormência de existencialismos potenciados a álcool atenuava-se finalmente e decidi fazer o que sabia melhor: nada.
Contra bom senso e em fiel estupidez, guiei para casa, confortado na sensação que só teria de lidar com a realidade no dia seguinte.

O caminho foi feito mais por habilidade e rotina que por percepção real da estrada.
Os meus pensamentos deambulavam por becos escuros de nostalgia amarela e o meu corpo pedia cama, fazendo todos os reflexos que conhecia para a alcançar.
Quando finalmente cheguei, entrei pelo apartamento imundo e cinzento aos trambolhões.
– Bonito que tu estás – disse para mim próprio.
Falava sozinho quando estava ébrio, mas também não era algo que não fizesse sóbrio.
– Concordo – alguém disse.
Não me mexi, não era preciso, reconhecia aquela voz em qualquer lugar.
-Não devias estar noutro lado qualquer?
-Onde?
-Na cama com ele se calhar.
Não devia ter dito aquilo mas também não ia pedir desculpa. Comecei a despir-me, não queria saber se ela estava ali.
-Não. Não achas que andas a exagerar?
“Disse não… porquê?”
-Com o quê?
-Com tudo.
-Vai-te embora Raquel…
-Estás bêbado.
-E?
-Não gosto.
-Pensasses nisso antes. Vai ter com ele.
-João…
-Vai – com isto, e ao tirar uma das botas, caí no chão, merecia pena.
-Vai… – repeti mais baixo.
Despi o resto da roupa com esforço e deixei-me cair na cama, pronto a adormecer.
Disse a mim próprio que não queria saber se ela ia ficar ou não, que era irrelevante e que era uma desperdício sequer pensar no assunto…
Quase que acreditei.

Imagem: Lost In Translation (2003)

 

Prólogo – Canção de adormecer

A minha mão alternava entre as mudanças e a pele quente das tuas pernas, pousavas a tua mão sobre a minha sempre que o fazia.
Estavas bem.

O Calor da Beata
Prólogo
“Canção de adormecer”

– Pai.
– Olá – e sorrio.
O teu filho chegou.
– Afonso acho que está na altura de ires.
– Não vens?
– Não, acho que vou ficar mais um bocado. O teu pai tem de ir embora, não o demores.
– Mas eu quero ouvir mais.
– Eu sei, continuo para ti noutra altura.
– Então não vais contar mais?
– Só mais uma, antes de ir. Mas depois repito-a quando estivermos os dois.
Afaguei-lhe o cabelo.
– Anda, vai.
Saiu.
– Pai…
– Sim
– Será que te faz bem ficar?
– A indulgência é algo complicado.
– Sem pretensiosismos.
– Sinceramente… Não sei.
– Ficamos à tua espera para jantar.
– Eu sei, é a ultima. Até já.
– Até já.
Saiu.
Ficámos os dois.
– Continuamos?
Continuavas adormecida.
A tristeza apoderava-se de mim, mas era uma tristeza madura, de quem já viveu muitos anos.
Uma tristeza que se sente todos os dias, como uma ferida que não sara, tolerável e escondida.
– É a ultima. Quero que durmas bem… vou recuar alguns anos.

“Entraste no carro.
– Bem… eles têm razão. Esses calções são ridículos.
O padrão floral não era muito másculo de facto, mas a minha incursão na maturidade estética masculina estava no início. Naquela altura os únicos calções curtos que consegui arranjar tinham flores.
– Estás com vergonha?
– Claro, não vou contigo para a praia assim.
– Então ainda bem que vou eu a conduzir.
Abraçaste-me e encheste-me de beijos bem-disposta.
– Vamos para a praia!
Sorri.
– Vamos.
Conduzi com calma, com as janelas abertas e a apreciar o calor do dia.
A minha mão alternava entre as mudanças e a pele quente das tuas pernas, pousavas a tua mão sobre a minha sempre que o fazia.
Estavas bem.
Chegámos à praia e houve algo sobrenatural naquela tarde, quando me lembro dela, lembro-me como se se tivesse passado toda ao pôr-do-sol… não sei porquê.
Brincámos junto ao mar.
Beijámo-nos nele.
Abraçámo-nos.
Estivemos em silêncio na areia.
Dormitámos um bocado.
Beijámo-nos mais um pouco.
Jogámos raquetes.
Tiraste fotos, muitas.
E depois, peguei eu na máquina.
Houve uma foto, a que gostei mais, em que caminhavas para mim.
O sol estava baixo e incidia sobre ti, morena de bikini branco. O vento também te emoldurava, puxava o teu cabelo para trás, dando a impressão que deslizavas sobre o ar.
Penso que o mundo tropeçava sobre si mesmo para nos dar aquele momento, para te enquadrar perfeita num instante guardado entre nós os dois…
Sorrio sempre com essa memória, Raquel.”

Levanto-me
Beijo-te, devagar.
– É assim que ficas em mim… A caminhar e a sorrir. Para mim.

Saio.

Imagem: La La Land (2016)

Reintrodução

Sebastian: I guess I’ll see you in the movies.

“A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho “olá”,
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste “ainda bem que voltaste”

A noite passada – Sérgio Godinho